A aparente injustiça da vida (e porque levamos isso para o pessoal.)

Tivesse eu escrito este texto há uma semana atrás, estaria com certeza alertando os leitores e leitoras sobre o perigo de confiar demais. Estaria descrevendo toda minha mágoa e minha indignação em ter que lutar contra quem conhece meus melhores golpes e praticamente todos os meus pontos fracos. Acima de tudo, estaria dizendo: "Não é justo que Fulano faça isso comigo!"


Para minha total surpresa, estarei na verdade falando de outra coisa.


Tudo por que de uma semana para cá, entrei num profundo exercício de desapego. Me despeguei do senso de justiça do ego. Em uma viagem interior quase sem volta, fui observando todas as reações (e suas sugestões) que aconteciam dentro de mim. Reações que surgiam do entendimento de que eu havia sido enganado e aquela pessoa tinha feito isso especificamente comigo.



A arena é uma ilusão que nos prende à luta vã.


Quase todas as reações tinham como base a vingança, a retaliação e o cinismo. O impulso de "devolver" na mesma medida (ou pior) aquilo que você "fez comigo". E vou te falar, tudo aquilo de mais terrível parecia justíssimo e que eu tinha todo direito de dizer e executar coisas horríveis em nome do "você fez comigo".


Qual era o problema? Nenhuma destas reações criava um cenário de solução da situação.


Na verdade, provavelmente iram piorar tudo. Percebi que se eu permitisse que aqueles pensamentos e ações se concretizassem, estaria perpetuando o engano do "você foi injusto comigo".


Então eu sentei em silêncio. Encontrei um lugar dentro de mim de onde eu fui capaz de observar tudo aquilo sem me identificar. Era como se eu estivesse no centro de uma arena, com uma espada na mão e meu oponente preso pela outra mão, indefeso. Foi aí que percebi a arquibancada e os gritos ensandecidos que me urgiam a devolver mais um golpe e que, se por um momento eu me esquecesse de qual era a verdadeira luta, o teria matado.


Mas não desta vez. Meu grande inimigo ali era a arquibancada. O ego personificado na voz de quem sente prazer em ver o circo pegar fogo com animais e crianças dentro. Na incitação à violência considerada justa e plausível pois "ele começou". Na insanidade de quem enxerga entretenimento no nosso pegar-se de porrada.


A verdadeira luta é ir além do falso senso de injustiça criado por essa gente que nos quer divididos, famintos, rasgados e feridos. Devemos parar de procurar quem começou o que e começar a observar quem está se divertindo às nossas custas.


Eu me dei conta, ali no meio da arena, que se não ficasse esperto iríamos nos matar para grande satisfação da platéia. E só por isso. Então fiquei parado por um longo tempo, totalmente imóvel, aos poucos a arquibancada começou a se calar, alguns se queixavam, pois afinal, não era justo! Enfim a arena se calou.


A necessidade de retaliação se foi. Nada de vingança. Enxerguei com ternura o então adversário em minha mão que havia sido "injusto" comigo. Vi nele um irmão. Percebi sua face atordoada e como ele também estava se recuperando dos efeitos das vozes que clamavam por sangue e batalha. Minhas armas estavam no chão. Porque estávamos lutando? Naquele momento, muitas perguntas. Qual será a nossa resposta amanhã? O que faremos quando a arquibancada voltar clamando que a violência é justa? Bem, aguardaremos em silêncio, até que retornem para suas casas.


É mais fácil assumir que o outro foi injusto conosco. Isso nos dá toda a "justiça" para deixar sair livremente os impulsos que nos fazem sentir superiores e agradam a TOE (Torcida Organizada do Ego).


Ninguém é injusto com ninguém, tá todo mundo sofrendo com os gritos de uma arquibancada de sádicos. Se queremos ser verdadeiramente justo entre nós, devemos fechar os olhos, tapar os ouvidos e nos abrirmos para o céu que vai além das fileiras da arena. Dali resolveremos nossas diferenças compreendendo que somos iguais.


Clareza para nós!





5 visualizações

CONTATO

  • Facebook ícone social
  • Instagram
  • Conecte-se ao meu LinkedIn!

© 2019 by Pedro Gaspar. All rights reserved. Comunicoaching - CNPJ 21.034.083.0001/00 - Rua Correia de Lemos, 179 - São Paulo - SP